Usar inteligência artificial em uma tarefa e guardar apenas o resultado final cria um problema simples: depois, ninguém sabe qual era o pedido, quais fontes foram usadas, o que a ferramenta mudou e quem conferiu a entrega. Se surgir um erro, a equipe precisa reconstruir o processo pela memória.
Este guia propõe um registro mínimo para trabalhos assistidos por IA. Ele serve para resumos, pesquisas, e-mails, apresentações, análises, imagens e pequenos fluxos automatizados. O objetivo não é arquivar toda conversa nem transformar uma tarefa cotidiana em auditoria formal. É preservar evidência suficiente para repetir, revisar e corrigir o trabalho.
O método é uma recomendação prática do Bastidores da IA, não uma obrigação jurídica universal. Processos de alto impacto, dados pessoais, ambientes regulados ou sistemas implantados por uma organização exigem governança própria e participação das áreas responsáveis.
Resultado esperado
Ao final, você terá uma ficha curta ligada ao arquivo entregue. Ela mostrará a finalidade da tarefa, a ferramenta usada, a origem das informações, as mudanças humanas, a pessoa responsável pela revisão e a decisão final. Outra pessoa deverá conseguir entender o caminho sem precisar acessar sua conta ou adivinhar o contexto.
A lógica acompanha orientações oficiais de transparência, supervisão humana e auditabilidade. O Guia de IA Generativa do Governo Digital reforça que a responsabilidade por documentos e decisões continua humana. O GuIA Unificado para o Setor Público trata responsáveis, aprovações, critérios de avaliação e registros para auditoria como partes do acompanhamento de projetos de IA.
Pré-requisitos: defina o tamanho do registro pelo risco
Uma lista de ideias para uso pessoal não precisa do mesmo controle de um parecer enviado a cliente. Antes de começar, classifique a consequência de um erro:
- Baixa: rascunho interno, organização de tópicos ou variações de título. Um registro de cinco linhas pode bastar.
- Média: e-mail externo, resumo de reunião, relatório ou conteúdo publicado. Guarde fontes, versão revisada e responsável pela aprovação.
- Alta: tarefa que afeta dinheiro, direitos, acesso, saúde, segurança, reputação ou decisão institucional. Não use este modelo como controle único. Siga a política da organização e envolva especialistas.
O Framework de Autoavaliação de Impacto Ético do Governo Digital relaciona transparência, possibilidade de auditoria, proteção de dados, supervisão humana e responsabilização. A intensidade do controle deve acompanhar o risco real da aplicação.
Passo 1: registre a finalidade antes do prompt
Escreva uma frase que explique qual trabalho será feito e para que o resultado servirá. Compare:
- Vago: “usar IA para analisar o documento”.
- Útil: “extrair do relatório as cinco pendências com responsável e prazo, para revisão do coordenador”.
A finalidade delimita o que pode entrar, o que precisa sair e quem deve conferir. Se houver dados pessoais, o princípio da necessidade da Lei Geral de Proteção de Dados, a LGPD, orienta a limitar o tratamento ao mínimo necessário, com dados pertinentes, proporcionais e não excessivos para a finalidade.
Não transforme a ficha em uma cópia do material sensível. Registre a referência do arquivo, sua classificação e onde ele está guardado. Senhas, tokens, documentos pessoais e segredos não devem ser colados no campo de observações.
Passo 2: identifique ferramenta, acesso e versão observável
Anote o nome do produto ou serviço, a data e o tipo de conta ou ambiente usado, por exemplo, conta pessoal, ambiente corporativo aprovado ou execução local. Registre modelo e versão apenas quando a própria interface ou API mostrar essa informação. Não tente adivinhar o modelo que respondeu.
Também indique quais recursos participaram: pesquisa na web, anexos, memória, conectores, geração de imagem, código ou automação. Isso ajuda a explicar por que uma repetição futura pode produzir outro resultado. Se a ferramenta não informa uma versão fixa, escreva “versão não exibida” em vez de criar uma precisão falsa.
O perfil de IA generativa do NIST AI Risk Management Framework recomenda documentar limites de conhecimento, supervisão humana, origem do conteúdo e histórico usado em teste, avaliação, validação e verificação. Para uma tarefa cotidiana, esses princípios podem ser reduzidos a campos simples e legíveis.
Passo 3: preserve o pedido que realmente produziu a saída
Se o prompt não contém informação restrita, guarde a versão final que gerou o material revisado. Se contém dados que não devem ser duplicados, salve um resumo estrutural: objetivo, formato pedido, critérios, arquivo de referência e restrições. A ficha deve ajudar na repetição sem ampliar a exposição dos dados.
Registre também mudanças importantes de contexto, como “a segunda tentativa recebeu a política atualizada” ou “a planilha sem nomes foi usada no lugar do original”. Não é necessário salvar todas as mensagens de tentativa e erro. Preserve as decisões que alteraram o resultado.
Passo 4: liste fontes e materiais de entrada
Para conteúdo factual, registre cada fonte que sustentou a entrega, com título, organização, URL e data de consulta. Para documentos internos, use nome, versão ou data e local controlado. Uma resposta da IA que apenas menciona um link não conta como fonte conferida. Abra a página e verifique se ela realmente sustenta a afirmação.
Quando a tarefa usa uma base documental, anote também o recorte. O Guia de Introdução ao RAG do Governo Digital destaca precisão, completude, consistência e atualização dos documentos. Uma lista de fontes sem versão ou data pode esconder que o material usado já estava desatualizado.
Passo 5: separe a saída da IA das mudanças humanas
Guarde a saída bruta somente quando isso for permitido e útil. Em seguida, registre as correções relevantes feitas por uma pessoa. Exemplos:
- duas datas foram confirmadas na fonte oficial;
- uma conclusão sem evidência foi removida;
- nomes foram substituídos por funções;
- o tom foi ajustado para o público;
- um cálculo foi refeito na planilha original;
- a recomendação final foi escrita pelo responsável.
Esse campo evita a impressão de que o resultado saiu pronto da ferramenta. Também mostra onde ocorreu o julgamento humano. A Ficha de Sistema de IA do Governo Digital, voltada a sistemas e não a tarefas isoladas, oferece uma referência útil ao pedir que o fluxo de supervisão informe em qual etapa uma pessoa revisa e como pode corrigir ou anular um resultado.
Passo 6: registre a revisão e a decisão final
Não use apenas “revisado”. Informe quem revisou, quando, quais critérios foram aplicados e qual foi a decisão:
- Aprovado: pode seguir para o uso definido.
- Aprovado com correções: a versão final incorpora ajustes identificados.
- Rejeitado: o material não é confiável ou adequado para a finalidade.
- Encaminhado: depende de validação jurídica, técnica, financeira, médica ou de segurança.
Vincule a ficha à versão entregue, usando nome de arquivo, URL interna ou identificador. Se o arquivo mudar depois, atualize a versão e registre o motivo. O perfil NIST AI 600-1 para IA generativa aponta histórico de versões, metadados, registros de mudança e documentação de incidentes como mecanismos que apoiam resposta e correção.
Modelo de registro mínimo
Copie este bloco para uma nota, ticket, documento ou campo do seu gerenciador de tarefas:
Tarefa e finalidade:
Responsável pela execução:
Data:
Nível de consequência: baixa, média ou alta
Ferramenta e ambiente:
Modelo ou versão exibida:
Recursos usados: web, anexo, conector, código ou outro
Materiais de entrada:
Prompt final ou resumo estrutural:
Fontes conferidas e data da consulta:
Principais mudanças humanas:
Limites ou pontos não confirmados:
Revisor e critérios:
Decisão final:
Arquivo ou versão entregue:
Prazo de retenção ou local de guarda:
Exemplo ilustrativo
Tarefa: resumir uma ata interna e extrair pendências. Ambiente: ferramenta corporativa aprovada, versão não exibida. Entrada: cópia da ata sem lista de presença. Pedido: extrair decisão, responsável e prazo, sem acrescentar informações. Revisão: cada item comparado com a ata original; uma data inferida pela IA foi removida. Decisão: aprovado com correções pelo coordenador. Entrega: pendencias-reuniao-v2.docx.
O exemplo não prova que a ferramenta é adequada para atas nem autoriza o envio de documentos internos. Ele mostra apenas como um registro curto deixa visível o que entrou, o que mudou e quem assumiu a decisão.
Erros comuns
- Guardar a conversa inteira sem critério: aumenta exposição e dificulta localizar as decisões. Preserve o necessário.
- Registrar só o nome da ferramenta: sem finalidade, fontes e revisão, o nome pouco explica.
- Anotar uma versão que não apareceu: use “não exibida” quando não houver evidência.
- Chamar o texto final de saída da IA: destaque as mudanças humanas e a autoria responsável.
- Usar a ficha para justificar tarefa de alto risco: o registro ajuda, mas não substitui aprovação, controle técnico ou avaliação especializada.
- Duplicar dados sensíveis: referencie o material no local autorizado em vez de copiá-lo para outra nota.
Checklist antes de encerrar
- A finalidade está clara e ligada a uma entrega?
- A ferramenta e o ambiente foram identificados sem adivinhar versão?
- As fontes foram abertas e registradas com data?
- Os dados preservados são somente os necessários?
- As mudanças humanas estão separadas da saída da IA?
- Há um responsável pela revisão e uma decisão explícita?
- A ficha aponta para a versão realmente entregue?
Se você ainda precisa organizar a entrada, veja o guia sobre como preparar um documento antes de enviar para uma IA. Para conferir a saída, use também o roteiro de verificação de respostas de IA antes do uso no trabalho.
Ilustração editorial exclusiva do Bastidores da IA. Não é captura de tela de produto ou sistema real.
Fontes oficiais consultadas em 13 de agosto de 2026
- Governo Digital e Serpro: Guia de IA Generativa
- Governo Digital: GuIA Unificado de Inteligência Artificial para o Setor Público
- Governo Digital: Framework para Autoavaliação de Impacto Ético em IA
- Governo Digital: Ficha de Sistema de IA
- Governo Digital: Guia de Introdução ao RAG no Setor Público
- Presidência da República: Lei nº 13.709/2018, LGPD, texto compilado
- NIST: Artificial Intelligence Risk Management Framework
- NIST AI 600-1: Generative Artificial Intelligence Profile
