O Google mudou o caminho recomendado para quem cria aplicações com modelos e agentes Gemini. Desde 22 de junho de 2026, a Interactions API está em disponibilidade geral e passou a ser a interface principal indicada para projetos novos. A mudança não desliga a API generateContent, mas altera onde o Google pretende concentrar recursos de agentes, tarefas longas e fluxos com estado.
Para uma equipe que já tem uma integração funcionando, a notícia não significa “migre hoje ou pare”. Significa que vale separar duas decisões: manter um fluxo estável no formato antigo e testar, com calma, se o novo modelo de interações resolve problemas reais de histórico, observabilidade ou execução em segundo plano.
Quando isso aconteceu
A Interactions API apareceu primeiro em beta pública em dezembro de 2025. Em 22 de junho de 2026, o Google anunciou a disponibilidade geral, uma estrutura estável e a adoção dessa interface como padrão na documentação do Gemini API e no Google AI Studio.
Em 11 de agosto de 2026, a documentação oficial ainda descrevia generateContent como uma interface legada, porém totalmente suportada. Essa distinção é importante. “Legada” indica que os novos recursos tendem a chegar primeiro na Interactions API. Não é o mesmo que uma data de desligamento ou uma obrigação imediata de migração.
O que a Interactions API reúne
A proposta é usar um padrão único para conversar com modelos e acionar agentes. Cada chamada cria um recurso de interação composto por etapas tipadas, como entrada do usuário, chamadas de ferramenta, resultados e saída do modelo. Em vez de enxergar apenas uma resposta final, a aplicação pode acompanhar uma linha do tempo mais adequada para depuração e interfaces que mostram o andamento de uma tarefa.
Quatro mudanças práticas se destacam:
- Estado opcional no servidor: uma nova chamada pode apontar para
previous_interaction_id, sem reenviar manualmente todo o histórico. - Execução em segundo plano: tarefas longas podem ser iniciadas com
background=truee consultadas depois. - Modelos e agentes no mesmo padrão: a aplicação escolhe um modelo ou um agente especializado sem adotar uma estrutura totalmente diferente.
- Etapas observáveis: ferramentas, resultados intermediários e saídas multimodais aparecem como passos estruturados.
Isso é especialmente útil em pesquisas longas, automações com várias ferramentas e produtos que precisam mostrar progresso. Para uma chamada simples de texto, o ganho pode ser menor, e uma migração só por novidade adicionaria trabalho sem benefício claro.
A API antiga continua funcionando
O Google recomenda a Interactions API para desenvolvimento novo, mas afirma que generateContent continua plenamente suportada e seguirá recebendo os modelos principais do Gemini. A expectativa declarada é que capacidades de fronteira voltadas a modelos de longa duração e agentes se concentrem cada vez mais na nova interface.
Na prática, a equipe pode manter uma integração antiga que esteja estável, desde que acompanhe a documentação e tenha testes. O ponto de atenção é não assumir que todo recurso futuro será exposto da mesma maneira nos dois caminhos.
A diferença que mais merece atenção: armazenamento por padrão
A Interactions API usa store=true por padrão. Isso permite continuar conversas com um identificador, executar tarefas em segundo plano e consultar registros de interação. Segundo a documentação consultada em 13 de agosto, a retenção padrão é de 1 dia no nível gratuito e de 55 dias no nível pago. Projetos pagos podem configurar 7, 14, 28 ou 55 dias no Google AI Studio.
Quem não quiser esse armazenamento pode enviar store=false. Há uma troca: nesse modo, não é possível usar background=true nem continuar a conversa com previous_interaction_id. Também é possível excluir uma interação armazenada pelo identificador.
Análise editorial: esse detalhe deve entrar na revisão de privacidade antes da migração, não depois. A equipe precisa saber que tipo de dado será enviado, qual projeto recebe a chamada, quem pode consultar os registros e qual prazo de retenção atende à finalidade. Estado conveniente não elimina minimização de dados, controle de acesso ou revisão jurídica quando houver informações pessoais.
O que muda no código e nos testes
No fluxo anterior, uma resposta típica vinha em listas de candidatos, conteúdos e partes. A nova API devolve uma interação com uma sequência de steps. Os SDKs oferecem atalhos como output_text para casos simples, mas resultados intercalados com imagens, áudio, raciocínio ou ferramentas podem exigir leitura explícita das etapas.
A documentação atual indica suporte a partir da versão 2.3.0 dos pacotes google-genai em Python e @google/genai em JavaScript. Antes de trocar o endpoint, uma equipe deveria testar pelo menos:
- a equivalência da saída útil para entradas conhecidas;
- o tratamento de erros e cancelamentos;
- a persistência ou a ausência de persistência desejada;
- a continuidade com
previous_interaction_id; - a leitura de etapas quando houver chamadas de ferramenta;
- custos, latência e limites no ambiente real.
Limites que impedem tratar a migração como troca automática
A documentação registra diferenças importantes. Na revisão de 11 de agosto, a Interactions API ainda não oferecia alguns recursos disponíveis em generateContent, entre eles Batch API, chamada automática de funções no SDK Python, cache explícito, metadados de vídeo e configurações personalizadas de segurança. O documento também informa que o Gemini 3 ainda não suporta MCP remoto nessa interface.
Essas lacunas não tornam a nova API inadequada. Elas apenas mudam a ordem do trabalho: primeiro inventariar o que a aplicação usa, depois criar um teste paralelo e só então decidir a migração. Um sistema que depende de lote ou de configurações específicas de segurança precisa verificar a compatibilidade antes de alterar produção.
Um roteiro prudente para equipes
- Mapeie o uso atual. Liste modelos, ferramentas, mídia, histórico, cache, lote e regras de segurança.
- Defina o modo de dados. Decida se a interação pode ser armazenada e por quanto tempo.
- Faça um protótipo isolado. Reproduza uma tarefa real sem substituir o caminho existente.
- Compare resultados. Avalie qualidade, erros, latência, custo e capacidade de auditoria.
- Planeje reversão. Preserve o caminho anterior até que os testes cubram casos normais e falhas.
- Atualize a documentação interna. Registre versões do SDK, campos obrigatórios e responsáveis pelo monitoramento.
Para entender como instruções especializadas podem acompanhar esse tipo de desenvolvimento, o catálogo do Bastidores tem a Skill Gemini API Dev. E, para equipes que precisam governar instruções e versões, vale comparar com a análise sobre versionamento de prompts e Skills no Mistral Studio.
Por que isso ainda importa
A mudança mostra que APIs de IA estão deixando de ser apenas endpoints de pergunta e resposta. Estado, ferramentas, execução longa e agentes passam a fazer parte da interface principal. Isso pode simplificar produtos mais complexos, mas também transfere decisões de retenção, observabilidade e compatibilidade para o desenho da aplicação.
Para quem começa agora, a recomendação oficial aponta claramente para a Interactions API. Para quem já está em produção, o melhor próximo passo é um inventário técnico e um teste controlado. A notícia relevante não é que o formato antigo desapareceu, e sim que o centro de evolução do Gemini mudou de lugar.
Fontes oficiais
- Google: anúncio da disponibilidade geral da Interactions API, publicado em 22 de junho de 2026.
- Google AI for Developers: visão geral da Interactions API, atualizada em 11 de agosto de 2026.
- Google AI for Developers: guia de migração de generateContent, consultado em 13 de agosto de 2026.
- Google AI for Developers: referência da Interactions API, consultada em 13 de agosto de 2026.
A capa é uma ilustração editorial original do Bastidores da IA. Não é captura de tela de produto, painel, código ou sistema real.
